
Decidi fugir. De forma transparente e assumida, sem qualquer clandestinidade. Tu sabes. Sim, de vez em quando olho para trás, para os lados, em volta. Mas fujo. Decidi fazê-lo há algum tempo e agora já não posso voltar atrás.
Aproveito cada nuvem, cada árvore, cada sombra, para me esconder. Por breves minutos, descanso o corpo já cansado, em paz, e continuo a saltitar cuidadosamente de pedra em pedra, redobrando-me em olhares atentos. Um passo em falso poderia originar uma queda aparatosa. Fujo. Aliás, vou fugindo.
Nem sempre fugir implica termos algo a perseguir-nos. Fujo de mim. Fujo de ti, mesmo sabendo que não estamos a jogar à apanhada nem às escondidas... nem a nada.
Quando não avisto esconderijos (mas tenho de avançar sem muito medo), tento enganar os meus sentidos: ponho mais perfume (inclusive um bocadinho mesmo debaixo do nariz) e uma flor fresca atrás da orelha, para não sentir outros cheiros que não estes. Falo muito (ainda mais!) para não conseguir ouvir o que me rodeia. Uso casaco e calças e ando com as mãos nos bolsos, para não sentir ninguém, nem mesmo quem passa demasiado perto. Não uso óculos; evito locais altos (e saltos) para diminuir o meu campo de visão.
E ainda assim, mesmo sem luz suficiente, mesmo quando estou distraída e não olho em redor... vens fazer-me umas cócegas irritantes no canto do olho e nadar no meu copo de água. Não volto àquele bar. Eu fui bem clara: "um café e um copo de água, se faz favor". Não pedi mais nada.
Só gostava que alguém me explicasse (pode ser o Menino, Jesus, que me parece que terá alguma coisa a ver com isto) porque é que, se andamos os dois a fugir, nos apanhamos tantas vezes.