quinta-feira, setembro 27, 2007
Foto: Ikke


Com o tempo, as folhas do seu pequeno bloquinho perfumado foram chegando ao fim. Para trás, ficavam as notas antigas, cinzentas ou cor-de-rosa, onde a menina escreveu cuidadosamente as suas histórias de princesas, príncipes, pescadores e ladrões. As histórias de lágrimas e sorrisos, partilhados ou por partilhar. Para trás, ficaram até as histórias de histórias por contar.

Sobravam agora menos de meia dúzia de folhas brancas... onde teria de desenhar um Mundo novo (enorme) e escrever todas as fórmulas que provam que, afinal, sempre existe uma força no Universo que é maior do que ele próprio.



Sem hesitar, decidiu: com todo o carinho, fechou o seu velho bloquinho e guardou-o na bolsa que traz sempre consigo, juntamente com o seu lápis já gasto. Sorridente, feliz, e segura, partiu, a cantar baixinho uma nova melodia... em Sol Maior.
 
By Joana @ 7:58 da tarde | 1 notas com outras assinaturas
terça-feira, setembro 04, 2007
[Quando se está demasiado cansado para escrever (e quando se sabe que as palavras, por muitas que fossem escritas, não seriam suficientes...) regista-se apenas a intenção de o fazer. Fica o sorriso, enorme, e a memória do dia em que o Mundo parou. Ficamos Nós.]
 
By Joana @ 8:42 da tarde | 5 notas com outras assinaturas
sexta-feira, agosto 31, 2007
prometo_que_nao__vou_______contar_a__ninguem_que___estou____a_descobrir
uma__nova_forma__de_saudade_daquela_____que_doi_antes_____de_fazer____sentido
existir_tambem_nao____vou_contar_que_ainda_sinto_____aquele_abraço__com_sabor
de_ate___ja_que_agora_trago____sempre_comigo_porque_uma__força
assim_so_pode_ficar________marcada_naO_____vou_dizer_que_me_sinto
a _desafiar_as_leis_______do_universo_e_a_brincar________com_o
infinito____e_que_isso_faz_____todo_o_sentido_nao
quero_contar_que_nao________sei_onde_este_caminho_me_leva_______que_daqui
nem_consigo______ver_bem_onde_____estas_ou_para
onde_vais_e_que_tudo____isto_quase_me_assusta_guardo
tudo_numa_caixinha_muito_____especial_que__tranco__a_sete
chaves_e_nao_______conto_nada__xiiiu___e_segredo_e_quero
guarda-lO___tambem_de_mim




Há quem diga que aqui falta pontuação e acentos. Que faltam espaços. Que falta uma imagem no início. Um tipo de letra. Que falta uma formatação.


Há quem diga que me falta juízo...
eu acho que me faltas tu.




 
By Joana @ 1:31 da manhã | 1 notas com outras assinaturas
quinta-feira, agosto 30, 2007



Foto: Onur Dincer


No ano passado, o final do Verão trouxe com ele uma surpresa: pela primeira vez, um carrossel vinha à minha aldeia. Rapidamente esqueci que a luz do sol já não era igual, que os dias estavam a ficar cada vez mais pequenos, ou que os meus encontros com o mar brevemente iriam reduzir-se a trocas de olhares.
Era uma ocasião muito especial, por isso escolhi o meu melhor vestido de princesa, e lá fui, seguindo aquela música que me hipnotizava e que vinha mesmo do cimo da minha rua. Quando cheguei, lá estava ele: um carrossel lindo, enorme, como nos filmes, cheio de figuras que preenchiam apenas os meus sonhos, iluminadas por luzinhas cintilantes que se confundiam agora com o brilho dos meus olhos grandes, ali ainda maiores, ainda mais brilhantes.

Apressei-me a escolher onde me ia sentar. Indecisa entre a girafa e o cavalinho, e com a excitação infantil de quem entra num mundo novo, acabei por escolher uma cadeirinha. Endireitei as costas, ajeitei o meu vestido e sentei-me, delicadamente e de cabeça erguida, no meu novo trono. Ali fiquei, com os pés a dançar, numa cadeira grande demais para mim. O primeiro movimento do meu carrossel fez-me soltar um sorriso novo, de quem realiza um sonho.

Dei voltas e voltas, umas mais rápidas, outras mais lentas. Ali, na minha cadeirinha, com o meu vestido de princesa, e com todas aquelas luzes, tudo me parecia maravilhoso. Nem sei quanto tempo passou até adormecer.

Um dia, sem nunca parar de rodar, o meu carrossel levantou voo e mostrou-me novos sítios, algumas nuvens que eu ainda não conhecia e também umas estrelas que pensava não existirem. Ensinou-me a descobrir a melhor forma de me ver ao espelho, a ver Mundos do avesso e a gostar de coisas que até ali, mesmo sem provar, dizia não gostar. Um dia levou-me até uma fada que cantava baixinho: "Round and round carousel / Has got you under it's spell / Moving so fast but going nowhere". A melodia, como tantas outras, ficou-me no ouvido. Sorri ainda mais por saber que o meu carrossel era uma excepção.

Acordei. O meu vestido de princesa já não me servia. Tinha o corpo dorido, numa cadeira onde já nem cabia. Cresci muito. Olhei em volta, e reconheci o cimo da minha rua. Ainda consegui sentir a última volta do meu carrossel... cada vez mais devagar... até parar. As luzes apagaram-se, a música calou-se.

Eu levantei-me. Sem hesitar, rasguei o pedaço do meu vestido que me apertava. Agora já não é de princesa, mas gosto muito dele. Escolhi outra cadeira. Maior. Como eu. E sentei-me, à espera...


Foi desta forma que descobri que, por vezes, os carrosseis param... é inevitável. Só assim poderão rodar para o outro lado. (e essa sim, vai ser uma viagem emocionante que eu não vou querer perder)
 
By Joana @ 2:55 da manhã | 2 notas com outras assinaturas
segunda-feira, julho 16, 2007

Foto: Terry Ward



Gosto.

Gosto de chegar a casa pouco antes do Sol, tendo-te ainda à flor da pele. É como se ainda sentisse cada toque, como se ainda ouvisse cada murmúrio. Como se o teu respirar ainda aqui estivesse, bem pertinho... doce e suave.

Gosto de cair na cama e só acordar no dia seguinte já de tarde, com o som da chuva que ninguém espera ouvir nesta altura do ano. E ficar por ali, ainda meio adormecida, a ouvi-la dizer que, tal como ela, tudo pode surgir fora do seu tempo. Porque sim.

Gosto. Gosto de ti.
 
By Joana @ 11:35 da manhã | 0 notas com outras assinaturas
quinta-feira, julho 05, 2007
Foto: Magnerusz Anna



"Concebes a ideia de teres passado por esta vida sem teres feito algo mais sério com a música?". Foi esta a pergunta que me fez levar-te até ao meu quarto de arrumações e mostrar-te a minha estante.


- É aqui que guardo todos os meus sonhos, disse-te, a apontar para a estante. Nestas prateleiras mais baixinhas, ponho aqueles que vivo todos os dias. Os que ditam o que vou fazer amanhã, para a semana e para o ano. Aqueles que me fazem acordar todos os dias com vontade de correr atrás deles, porque sei que um dia, mais tarde ou mais cedo, os vou conseguir apanhar.


- Que giro... Então e as prateleiras mais altas?


- As prateleiras mais altas, onde vês guardadas aquelas semifusas e tantas outras coisas, servem para guardar os sonhos que são e serão sempre apenas e só eles próprios. Aqueles que nascem de uma paixão enorme, mas que a minha Razão rapidamente coloca lá em cima, na última prateleira... Naquela onde não consigo chegar, apenas observar cá de baixo de vez em quando...


- É muito bonita, aquela prateleira, disseste, a olhar lá para cima.


- Pois é... , suspirei eu.



Já adormeci no teu olhar, já me perdi no teu respirar, já te peguei na mão sem medo. Agora só me falta decidir em que prateleira te vou arrumar...


 
By Joana @ 10:55 da manhã | 2 notas com outras assinaturas
terça-feira, junho 19, 2007
[Para a Su. Como dizia o nosso amigo, "eu sei que tu compreendes bem"...]




As nossas asas cresceram connosco. Movidas pelo sonho, voámos alto, tão alto que tocámos o céu que ajudámos a construir. Pintámos o nosso céu com cores e melodias só nossas, que preenchemos de estrelas e arco-iris, hoje memórias.

E agora? Reaprendemos a voar ou esperamos que o Céu nos caia em cima, em pedaços? Como é que fazemos para deixar cair as nossas asas... se elas já fazem parte de nós?
 
By Joana @ 1:09 da tarde | 4 notas com outras assinaturas
terça-feira, junho 05, 2007
Foto: Taesang



... andei descalça na rua, só porque sim, e já dormi calçada.
Já comi gelados no Inverno e bebi chocolate quente no Verão.
Já descobri que as lágrimas sabem a mar, apesar de não saber porquê e de achar que isso não faz qualquer sentido. Já ri sem razão, durante horas.
Já fugi, mas também já corri atrás de quem nunca se deixa apanhar.
Já deixei a roupa pendurada no estendal durante 2 dias, à espera da melhor altura para a apanhar (foi assim que descobri que, por vezes, "a melhor altura" é sempre "ontem" ou "amanhã").
Já estive sozinha no meio de amigos e já me encontrei num olhar desconhecido.
Já andei de eléctrico em Lisboa sem querer chegar a lado nenhum. Já estive no miradouro da Graça em noites quentes de Verão a tocar guitarra. Já tive saudades.
Já fui aplaudida de pé.
Já escrevi notas musicais numa parede, e descobri que afinal não faziam qualquer sentido. Já tive medo de ter medo.
Já vi o nascer do Sol num país longínquo.
Já andei de limousine, calcei as minhas sandálias douradas e usei o meu melhor sorriso... só porque tinha de ser.
Já recebi promessas que ficaram por cumprir (um abecedário quase inteiro) e surpresas memoráveis.
Já descobri que o infinito afinal não passa de um símbolo matemático e que o vazio, afinal, é muito mais do que isso.
Já caí de cabeça e não senti nada, e já me desfiz por dentro estando perfeitamente imóvel. Já fiquei sem palavras quando tinha tanto para dizer.
Já subi à Torre Eiffel e fui à Eurodisney (em sonhos).
Já cantaram só para mim. Já sussurrei ao ouvido de alguém.
Já fui palhaço por um dia e princesa por uma semana... e aprendi que o Tempo afinal só existe nas nossas cabeças.


Já construí um Mundo com uma forma estranha, nada esférico, nada simétrico, mutável, sempre igual a si próprio... e guardei-o só para mim.


Hoje quase descobri que este meu Mundo é pequeno demais para mim... e grande demais para nós dois.
 
By Joana @ 10:32 da manhã | 4 notas com outras assinaturas
quarta-feira, maio 09, 2007
Foto: Luiza Puiu



Os dias que anoiteciam cedo são agora apenas uma memória. Ao fim da tarde, quando o sol se deita no mar, o cheiro da terra já sabe a Verão. À noite, já apetece sair de casa.... e só voltar contigo.


Neste remoínho de sensações tudo se confunde. Já desisti de tentar distinguir o meu sabor do teu. Começo a desconfiar que, como os cheiros, são quase iguais.


Hoje acordei cedo, com a luz do sol que entrou pela janela que ontem ficou entreaberta. Ao lado da minha almofada, encontrei um bilhete:


"Estava a precisar do teu respirar."


Acho que, por enquanto, não preciso de mais nada para ficar a sorrir até ao Verão.
 
By Joana @ 3:32 da tarde | 0 notas com outras assinaturas
domingo, maio 06, 2007
[...com um beijo. Assim termina o luto.]





Com o tempo, fui construindo o meu próprio calendário. A cada dia, associo um acontecimento: Um sorriso, uma alegria partilhada, uma estrela cadente, ou apenas uma canção.


O dia de hoje... apaguei-o. Não sabia o que fazer com ele, por isso pura e simplesmente deitei-o fora. O meu calendário tem menos um dia que todos os outros. O tempo agora passa mais depressa.

Raramente olho para trás. Quando o faço, vejo tudo desfocado. As memórias, guardei-as numa caixinha prateada, que não voltarei a abrir. Basta-me saber que lá estão, que foram reais e que me fizeram crescer. Fica esta ruga, obra de muitos sorrisos, para não me esquecer de mim cada vez que me vir ao espelho.

Com tanto e tão pouco, contruí outro caminho, outra estrada. Escolhi outros companheiros de viagem, outra bússula, outro mapa, outros destinos e outras rotas. Encontrei outras razões para sorrir, para chorar e para registar na memória. Desenhei outro arco-íris, tracei outros horizontes e cantei outras canções. Inventei outro Sol, outro Céu, outra Lua e outras Estrelas.

Não é melhor. Não é pior. É diferente.



Encontrei-te por acaso. Demos um abraço, mas não dissemos nada. Pediste-me o meu telefone. Fingi escrevê-lo nas costas de um bilhete de metro, que dobrei para não veres. Não escrevi o número. Apenas uma frase: "A soma de duas pessoas sozinhas não dá duas pessoas acompanhadas". Sei que entendes.


 
By Joana @ 7:14 da tarde | 2 notas com outras assinaturas
quarta-feira, abril 25, 2007



"Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim"... que estamos assim, frente a frente, mão contra mão, a olharmo-nos nos olhos e quase sem precisar de dizer nada. Mas, na nossa linha do Tempo, lá ao fundo, bem ao fundo, acho que já consigo vislumbrar o dia em que eu, tu ou nós, teremos, invariavelmente, de dar um passo para a frente... ou um passo para trás.


Enquanto esse dia não chega, assim, frente a frente, vamos dando passos para o lado, dançando ao ritmo da música que escolhes sempre tão bem, ou da chuva que bate no telhado de vidro, mesmo aqui por cima de nós. Aqui o Tempo desaparece e enrola-se sobre si mesmo. Aqui nada mais importa.
 
By Joana @ 2:01 da tarde | 2 notas com outras assinaturas
sexta-feira, abril 20, 2007
Lá ia ele, muito devagarinho, pelo corredor. Os passinhos que dava, proporcionais ao tamanho dos seus sapatos, sucediam-se a medo, com calma. Ainda há poucos dias tinha dado o seu primeiro passo, quase tão aplaudido pelos pais como a queda que o sucedeu. Não queria cair mais vezes, por isso andava, devagarinho, sem pressas, muitas vezes apoiando-se nas paredes e nos móveis, com passinhos pouco maiores que os seus sapatos.


Desconfio que estes sapatos me começam a ficar apertados. Os meus pés cresceram, já não cabem aqui. Ao final do dia sinto-os doridos, mal consigo andar.

Vou dormir. Amanhã, quando acordar, saberei certamente o que fazer: tiro os sapatos e continuo a andar, mesmo descalça, ou espero que o senhor da loja me traga uns sapatos maiores para eu experimentar?
 
By Joana @ 12:25 da tarde | 1 notas com outras assinaturas